História do Bairro

MÉMORIAS

“(…) Ressaca! Chamava Ressaca! Ali onde eu morei (…)Lá era um lugar muito pobre, muito humilde, não tinha condução, sabe? Era estrada de terra, era muito difícil distante do centro de Belo Horizonte, a gente ia a pé (…)”

G.C.C. – 92 anos – Moradora do Bairro deste 1917


“(…) Engraçado, era difícil, mas todo mundo vivia bem né? Não tinha esse negócio de roubo não tinha assalto não tinha nada e a gente ía a pé, andava no mato era só mato! Não tinha nada! Não tinha perigo não tinha nada. (…)”

G.C.C. – 92 anos – Moradora do Bairro deste 1917

“(…) Eu acho que os jovens tem que interessar um pouquinho mais, porque a gente já ta velho né, já envelheceu tem as historias para contar mas não tem força pra trabalhar (risos) (…) nos construímos pros jovens, agora ele que tomem conta e zelem por que nos deixamos, outros passaram (…)”

I. J. A.  – 70 Anos – Moradora do Bairro deste 1972

BELO HORIZONTE E A REGIÃO DO RESSACA

Fundada em 12 de Dezembro de 1897, e imaginada pelas “elites mineiras portadoras de uma ordem republicana” (BUÉRE apud PAIVA 1997, p. 67), a cidade de Belo Horizonte foi concebida para marcar a ruptura com o passado tradicional colonial, e nasce, sob o signo da recém proclamada Republica Brasileira, que “queria marcar o seu surgimento com um monumento totalizante “moderno”” (CEREZO apud PAIVA 1997, p. 121)

Sua comissão construtora, em sintonia com os mais recentes projetos urbanísticos europeus, planejou uma capital com lugares arejados, amplas e largas avenidas (BUERE apud PAIVA p. 68), de acordo com o modelo de Paris de Haussman (Paris – FRA), e L` Enfant (Washington – EUA).

O plano geral da Cidade comandado pelo Engenheiro Arão Reis, prévia três zonas:

“A Urbana – dentro do perímetro da atual Avenida do Contorno, destinadas às repartições e às residências dos funcionários públicos, A Suburbana (Em torno da urbana, fora do perímetro da Contorno, para sítios e chácaras) e a Rural ( a mais externa, para o cinturão verde destinada ao abastecimento da cidade)” (CEREZO apud PAIVA 1997 p.109).

O bairro São Salvador e as Vilas Belém e Maria Emília estavam localizados nesta última zona, dentro do “celeiro agrícola” que, segundo CEREZO (apud PAIVA 1997), foi ocupado por pessoas que fugiam dos altos preços dos terrenos e das exigências urbanísticas impostas pela elite idealizadora da capital.

Esta elite previa um crescimento de “dentro” para “fora”, de forma que  “os valores da área central sintonizados, com o modelo da urbanidade e civilidade dos paises desenvolvidos se expandissem para as áreas periféricas” (LE VEM apud PAIVA, 1997, p. 75). O que não era uma tendência apenas da nova Capital Mineira, e sim, de todas as cidades que passaram pelo processo do novo urbanismo.

Os loteamentos da Zona Rural (denominadas “Vilas”) ocorrem nos anos 20 com o surgimento das companhias imobiliárias e loteamentos.

As Vilas Belém e Maria Emilia, pertencentes ao “cinturão verde”, eram responsáveis por abastecer a área urbana, daí já se pode realizar algumas considerações acerca dos primeiros habitantes da localidade. Certamente eram pessoas com afinidades ou que dominassem as técnicas de cultivo da terra e/ou simplesmente fugiam da especulação imobilizaria da Zona Urbana.

Acredita-se a proposta que concebeu a capital ruiu, uma vez que a cidade começou a crescer de “fora” para “dentro”, ao contrário do planejado. Pessoas advindas do interior do Estado com hábitos, tradições, religiosidade, de pouca escolar  e com traços da herança colônia, promovem esta ocupação trazendo consigo valores totalmente avessos aos pregados pela elite “moderna”

UM POUCO SOBRE O SÃO SALVADOR

A região da Ressaca está dentro do que a comissão construtora chamou de cinturão verde,  responsável por abastecer a então zona urbana da cidade com hortifrutigranjeiros. O que de fato é comprovado no depoimento de G. C.. “Meu pai plantava horta, verdura para levar no mercado central sabe!”

O  bairro São Salvador, e as Vilas Belém e Maria Emilia, tem suas origens a partir da divisão de terras entre familiares proprietários da Fazenda dos Coqueiros, uma das maiores fazendas daquela região, conforme afirma o narrador descendente da família  N. B. C. um dos entrevistados deste trabalho.

“Pra situar a situação da região da Ressaca, eu gostaria de citar algumas coisas, tinha a Família Andrade Melo, que era a dona da Fazenda São José onde hoje é tem o bairro Alípio de Melo, bairro Castelo e Jardim Montanhês e Inconfidentes e inclusive desta fazenda foi desapropriado o terreno para construção do aeroporto do Carlos Prates. Havia também a fazenda dos Coqueiros que é do José Soares, inclusive ele foi primo do meu pai, hoje engloba os bairros Pindorama, Glória, Novo Gloria, Primavera, Ipanema, Dom Bosco” (COELHO, Entrevista, p. 76).

A região também foi uma das principais passagens[1] de Belo Horizonte para a sede do município de Contagem e serviu de passagem para o gado que, depois de contado em Contagem, vinha para Belo Horizonte. A localidade também ficou famoso por abrigar o Balneário do Ressaca, clube de lazer da elite da capital mineira, que se deslocava para a zona rural da cidade para descansar nos finais de semana e feriados.

O Narrador Nilson Coelho especulou que a região poderia ter sido, em um passado mais longínquo, passagem dos bandeirantes, já que nas proximidades do bairro existia uma cruz[2] de madeira que talvez fora afixado ali para marcar o caminho. Também relata que uma moradora antiga que, durante anos morou com sua família poderia ter sido descendente de escravos que talvez foram deixadas ali por estes bandeirantes.

Um dos marcos do bairro é a capela de Santo Antonio da Vila Belém erguida em 1935 pelos donos das terras da Vila Belém. Além de espaço sagrado, a “capelinha”, como é chamada hoje pelos moradores, era o centro de lazer da comunidade, usado para encontros e confraternizações. Entre os eventos destacavam-se os encontros musicais, vários com a participação da cantora Clara Nunes, como afirma G. C.

“Todo sábado ele fazia um choro lá! Convidava as cantoras né! Eu alembro que foi Clara Nunes, foi cantar lá várias vezes, uma colega dela que eu não me alembro o nome, uma morena sabe! Que também cantava muito bem, era amiga dela, colega dela, ía as duas. Aí meu marido reuniu de tarde, o pessoal ali da redondeza, também crianças, distribuía bala pras crianças sabe! Aí tinha aquele chorozinho, ficava cheio, porque ela cantava muito bem. Ela foi muitas vezes lá. Depois do choro a gente descia lá um café” (COELHO, Entrevistas, p. 53)

Esta prática de ocupação do tempo livre, dos moradores da Vila Belém, mostra a importância que a igreja católica tinha como espaço de aglutinação e de socialização. Talvez se tenha neste evento uma das primeiras práticas de inclusão social através do lazer da cidade de Belo Horizonte.

O BAIRRO  SÃO SALVADOR CONTEMPORANEO

A região que anteriormente era conhecida como Ressaca agora é conhecida como região do Alípio de Melo e/ou Gloria. Do nome Ressaca restaram o córrego Ressaca que deságua na lagoa da Pampulha, a Regional Administrativa da Ressaca no Município de Contagem e o bairro Balneário da Ressaca que está localizado em Contagem, divisa com o bairro São Salvador, localidade onde era o clube de lazer da elite de Belo Horizonte.

A região do Alípio de Mello, conta com hoje com uma infra-estrutura muito diferente daquela narrada pelo entrevistados desta pesquisa. Hoje é possível perceber vários supermercados, sacolões, padarias, farmácias,  Grandes lojas de eletrodomésticos, bancos,  uma variedade de pequenos comércios além de bares, restaurantes e “butecos”, concentrados principalmente nas Avenidas Abílio Machado e Brigadeiro Eduardo Gomes. A necessidade de ir à antiga “Zona Urbana” da cidade de Belo Horizonte para fazer compras e acessar alguns serviços, quase não existe nos dias atuais.

A Prefeitura de Belo Horizonte dividiu a regional Noroeste em micro-regiões administrativas. O bairro São Salvador está na Micro-Região Glória que segundo dados da PBH fornecidos pelo – IBGE 2000 têm uma população de 69.546 mil habitantes. O bairro conta com ruas urbanizadas, saneamento básico, escolas, posto de Saúde, lan houses, um comércio razoavelmente diversificado, e também com duas grandes fabricas: A Mate Couro bebidas e a de Pães Seven Boys.

O acesso ao centro da cidade sempre foi umproblema. Se no começo era difícil por causa da distância e da falta de meios de transporte coletivos como afirma a narradora, moradora da antiga Fazenda da Ressaca que pegava bonde no Padre Eustáquio:

“(…) Nossa, senhora! Era longe prá dana! A gente ia a pé onde é Caixa Econômica lá no Padre Eustáquio, agente tinha que pegar bonde ali sabe!”  Não, não era na pracinha São Vicente não! Era lá onde é a igreja Padre Eustáquio, prá cá um pouquinho, você entendeu? A gente ia até  ali a pé, pra pegar o bonde! Era bonde porque nem ônibus tinha (…)” O primeiro ônibus que fez transporte alí foi do meu marido, uma jardineira pequena, foi o primeiro. O povo tudo andava a pé de carro de boi” (COELHO, Entrevistas, p. 59)

E mesmo com a chegada das primeiras linhas de ônibus na região, a dificuldade continuava como afirma Dona I. J. A., moradora da antiga Vila Belém que narra:

“(…) ônibus a gente pegava no Glória, ou então ficava mais de uma hora e quarenta minuto aqui na Avenida esperando o Guanabara que era primeiro ou o Serrano para  gente ir para centro né! Levar criança no médico era a maior dificuldade, a vida era um pouco sofrida (…)” (A. entrevista, p. 89)

E, no mesmo sentido do Dona Enedina, moradora da Vila Maria Emilia também narra:

“(…) quando a gente veio para aqui ou pegava aquela que eu te falei a jardineira até aqui perto da Santo Antonio e ir aqui lá para dentro né! ou então a gente pegava o ônibus, já teve um ônibus até no Ipanema, e do Ipanema a gente vinha a pé né! Depois ai foi melhorando foi chegando ônibus pra  cá  (…)” (S., entrevistas, p. 107)

Hoje a grande oferta de coletivos, e a popularização dos veículos de passeios, têm provocado engarrafamentos nas principais saídas da região nos horários de “pico”. O grande tráfego também é resultado da cornubação dos Municípios de Belo Horizonte e Contagem, o que faz com que os moradores deste último também utilizem este corredor de trânsito para chegar ao hipercentro da Região Metropolitana.

Recentemente o Governo Federal aprovou, pelo Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, a desapropriação das famílias da Vila São José para abertura e interligação da Avenida Pedro II ao bairro Alípio de Mello, o que pode melhorar a saída da Região.

O bairro também carece de espaços de Lazer. Ainda que recentemente tenham sido aprovados dois empreendimentos no Orçamento Participativo de 2006, a construção na região do Teatro Municipal no Bairro Alípio de Mello. E do Centro de Esporte e Lazer do São Salvador.


Trechos do Trabalho e Conclusão de Curso da PUC-MG Intitulado: Identidade Local Lazer e Turismo na Metropole Belohorizonte: Memorias das Vilas Belém e Maria Emília.

Autor: Rafael Frois da Silva / Orientadora: Andrea Casa Nova

Mais Sobre o Bairro


12 respostas em “História do Bairro

  1. Através deste levantamento histórico da região é que podemos valorizar a cultura e a história que existe no bairro. Parabéns ao Rafael que fez e faz todo levantamento histórico da região. Isto valoriza ainda mais o bairro São Salvador e os moradores começam a enxergar o bairro de forma mais respeitosa.

  2. Pingback: O Fusca e Rio « Bairro São Salvador – Belo Horizonte

  3. OI, MEU NOME E GEANE

    PARABÉNS , SEU BLOG E MUITO LEGAL E INTERESANTE . VOCÊS ESTÃO 10.
    XAU ,
    BJS!

  4. A parte historica do bairro fico muito boa,é interresante e resumida.A divisões entre e historia e relatos dos moradores mais velhos da impressão de uma linha do tempo.
    ficou bem legal

  5. O blog de vocês é nota 10, parabéns pelo trabalho
    o bairro é maravilhoso continue assim o trabalho de vocês é interantissimo.

    bjoss
    Elizangela

  6. quero reclamar sobre falta de hospital no municipio de lagoa santa..peço que leve ate o conselho regional de medicina o dr.fernando desativou o hospital do municipio fazendo omissao de socorrro deve cassar a carteira dele de medico…..seja do povo….experimente…o SUS….. preso com sela especial so trouxa….

    • bairro promissao 2 em lagoa santa sem iluminaçao nehuma a noite para fazer caminhada e estrupada existe conivencia com bandidos….e pagamos taxa de iluminaçao publica alem do aumento…..av. rodoviaria a mesma coisa sem iluminaçao dos dois lados……

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